sábado, 29 de março de 2014

Amor pra depois

Aquele quintal
vai ficar pra depois
Aqueles dois meninos
vão ficar pra depois
Aquele embalo da rede
vai ficar pra depois
No domingo de preguiça
vai ficar pra depois
Aquela ida à igreja
vai ficar pra depois
Aquela sobremesa
vai ficar pra depois
Aquele cachorro correndo
Vai ficar pra depois
Naquele mesmo quintal
que vai ficar pra depois
Aquela cerveja gelada
vai ficar pra depois
Na tarde quente
vai ficar pra depois
Aquele ciúme
vai ficar pra depois
Aquele sorriso
vai ficar pra depois
Aquele afago
vai ficar pra depois
Aquele abraço
vai ficar pra depois
Aquele aniversário
vai ficar pra depois
Aquele retrato
vai ficar pra depois
Aquele carinho
vai ficar pra depois
Aquele sentido
vai ficar pra depois
Aquela razão
vai ficar pra depois
Aquela emoção
vai ficar pra depois
Pausa a vida
Eu espero nós dois
Mas não cancela
O que destino compôs
Não anula o direito

Rasura a escrita mas não apaga a rima desse amor pra depois.




Das Muitas Saudadess

Saudades das mais variadas eu tenho de ti
São espécies de saudades únicas
São saudades mil de coisas mil de delírios mil
Saudades de saudades de saudades

São saudades de coisas que nem fizemos
Saudades de horas que nem vivemos
Saudades de sonhos que nem tivemos
Saudades de saudades de saudades

São saudades de coisas tão reais
Saudades e desejos racionais
De saudades de planos ideais
Saudades de saudades de saudades

São saudades de pele, peso e medida
Saudades da fome de ser tua comida
E saudade da sede e necessidade da vida
Saudades de saudades de saudades

Sinto saudades das mais variadas

Saudades da água na boca
Da língua em atrito
Saudades da pausa cansada
Do suor nos poros
Do corpo tenso e do beijo imenso
Saudades do encontro escondido

Saudades de saudades de saudades

Saudades tenho dos dias em que você chegava
Saudades das noites que eu te encontrava
Saudades da saudade que teu beijo dava
Do encaixe do abraço, da mão que apertava.

Saudades de saudades de saudades.

Do corpo em repouso. Do peito nu.
Da cor dos olhos.

Saudades.




  

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O Poema Forçado

I. O Poema Forçado

Ontem eu quis te escrever um poema
Um poema que falasse de saudade
Ou qualquer poema independente do tema
Mas um poema que dissesse a verdade

Dei mil voltas, fiz vários esquemas
Mas a tua falta se mostrou um problema
E no papel sequer saiu uma frase pequena
E me sinto um poeta fiasco, 
poeta digno de pena

Mas hoje de qualquer jeito eu tinha que te escrever um poema
Um poema que te mostrasse verdade
Nem que fosse um poema à vontade
Um poema sem norma, um poema sem lema

Abri dicionários, roubei relicários, me fiz ao contrário pra criar um poema
O destino ao final se mostrou solidário
Fiz esse poema primário que em nada lembra os passados
No bom tempo em que eu te tinha ao meu lado
E bastava te ver que fluía poema
Bastava escrever que fluía poema


II. O Espontâneo do Poema Forçado

E naquele tempo o que era poema
Senão acariciar a tua pele lisa e morena?
Controlar fluidez era o grande dilema
Domar o teu corpo gemendo em fonema
Ao som do sussurro que a orelha esquenta
E tanta lembrança que inspira e atormenta
Só faz-me pensar que a tua presença
Minha pobre e opaca poesia sustenta


E foi ao natural até aqui minhas linhas
E ao vendaval das lembranças contidas
Me veio um sopro, soprando as narinas
Tomou-me o corpo solapando a vida
Em meio ao instante, no segundo que finda
Na saída da hora, o minuto que alinha
E descompasso do peito, 

é o coração chorando poesia.

III. Força do Poema Forçado disfarçado no Espontâneo

Hoje eu quis te escrever um poema
Um poema que fizesse as pazes
Um poema que calasse a vontade
Que fizesse dormente a saudade e a doença 

IV. O Fim do Poema Forçado 

Quis e fiz
Fim. 









terça-feira, 14 de agosto de 2012

O epílogo introdutório do início do fim


Finda a noite dessa nossa vida
Finda a tarde em pérolas ao chão
Finda a nossa linha e na estação
O coração que desafina
E no vibrar de um dedilhar em fuga a rima
Na fina corda o violão tão sem canção
E a emoção que tu sentias hoje à mingua
Tão minha a tua dor que esquadrinha

Vem
E posta esse teu corpo em flexão
Em contrição
Dá-me tua mão
Que é tudo em vão
Que é tudo um vão

Finda a poesia dessa nossa coisa
Finda a coisa que sem valor foi-se ao chão
Finda a linha, finda essa canção

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Da Confusão do meu silêncio


Tava aqui em silêncio
Olhando para o nada
E nada cala o meu peito
E nada emudece essa fala
Em nada estipulo conceito
E nada descansa essa alma
E nada que eu faça é direito
E nada atrai essa calma
E nada é tão forte e estreito
E nada abranda a revolta
E nada detém meu desejo
É nada se te tenho de volta

E tudo o que quero é teu beijo
E tudo o que tenho é saudade
E tudo o que penso em meu leito
É tudo o que tens de vontade
E tudo o que faço é sem jeito
E tudo o que digo é verdade
Em tudo que olho te vejo
E tudo se faz mais coragem

Tava aqui em silêncio
Olhando para o nada
E nada me faz mais inteiro
Que imaginar nossas histórias casadas.

domingo, 3 de junho de 2012

Testificado


Deus, escrevo-te não por incapacidade de com a boca dizer o que sinto,
ou por incredulidade na presença constante do teu espírito.
Sei que és presente até quando eu não quero.
Sei que me ouves até quando não digo.
Escrevo-te não por querer gerar um documento que sirva como testamento de que pedi,
e posteriormente fui atendido,
como uma nota fiscal, um recibo.
Escrevo-te não só para que minha oração rabiscada vire obra desejada.
Mas também para que ao ser lida, seja prece duplicada.
E talvez logo atendida.
Deus, escrevo-te não por exibição.
Não para pôr à prova a minha coesão.
Não para tonar pública a minha confissão,
mas escrevo-te clamando por interseção dos que me lêem,
e compaixão dos que me chamam de irmão.
Escrevo-te, meu pai, não por querer uma simples resposta,
não por querer uma resoluta posição.
Mas escrevo-te, meu Deus, muito mais por não saber o que fazer,
depois de tentativas inúteis visando conclusão.
Temo ter falhado miseravelmente na missão como cristão.
Deus, escrevo-te não por ter fé, mas por tê-la perdido.
Sendo este aqui seu último suspiro.
Escrevo-te prolixo, escapando ao objetivo,
mas não por medo do teu silêncio,
mas por temer o teu juízo.