domingo, 22 de maio de 2011

E isso é viver

E quando grandes olhos dizem tanto quanto a boca
E quando a boca com um sorriso diz mais que o vocabulário inteiro
E quando um toque vai além e toca alma
E quando a alma vai além e toca outra
É quando uma porção de Deus pinga na carne
E é aí que o amor encarna-se e caminha
Se faz ambulante
Do contrário, o amor é estanque
Pois o amor se agrada em hospedar-se
E em desmaiar-se
Esmorecer-se
E descansar-se deitado na carne e na alma de alguém
Até que as almas se tornam alma
E o descanso do amor agita-se no encontro dos amores
E isso é viver

A vida só é viva se compartilhada
O vivo só vive o amor, se vive o dar-se.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Dança

Há uma coisa no abraço
E é a coisa mais estranha
É coisa que vai além da pele
Coisa de quem se ama

Há um ponto no encontro
Que os pontos do corpo
Apontam os poros da pele
A ponto de querer a posse

Há tanta mocidade nela
E tantas moças mais que ela
Tantos moços à espera dela

Mas nada faz mais moço o meu viço
Do que a vivacidade que tem o meu vício nela

sábado, 7 de maio de 2011

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A carta que não foi

Um sopro vívido do Deus que cuida dos seus, bastará. Para que a ressurreição dos meus sonhos e as portas da felicidade se abram diante de mim. E toda falta de sentido terá fim e resultará num doar-se ao amor com mais força e com o ímpeto mortal de um kamikaze. Me deixarei, largarei meu corpo, com depositada fé, no mais profundo abismo de ser, e no ser - de alguém, e de ser - de alguém. Pois não há nada mais lindo do que pertencer, do que ter um lugar, do que ter pra onde retornar, do que ter pra quem se entregar, do que ter tanto para receber por ter tanto para dar.
Um dia o sopro vem. E tudo vai se encaixar. Até minha história na tua. Até meus sonhos nos teus. Até o teu corpo no meu. E teremos e seremos lugar um do outro, um conjugado onde o Deus do sopro habitará.
Caminhar. Caminhar de mãos dadas. E as mãos, independentes, se reconhecendo e tateando as linhas de suas palmas, dizendo nesse tato, entre tantas intimidades – eu te amo. Enquanto nossos olhos se cruzam sem querer, gerando sorrisos e comentários, dos elogios mais amenos às obscenidades que só são ditas no escuro. E durante os sorrisos, bem antes da mente pensar em beijos, estaremos entre um devorar selvagem e um lento degustar de lábios inéditos e bem conhecidos um para o outro. Beijos novatos e veteranos. Beijos bêbados e sóbrios. E sem falar dos abraços. Abraços que sondam o corpo. Abraços em milimétrico estudo anatômico. Abraços como engrenagens, de encaixe pleno, de mecânica perfeita. Abraços herméticos. Quem será você nesses abraços, se seremos tão um só?
Enquanto isso tudo, haverá o medo da perda, medo do fim. E esse medo sempre estará ali, como um cão de guarda que late alertando o perigo da casa invadida. Vem morar em mim. Uma terra cheia de realizáveis promessas. Me aceita, que o sopro vem. Estou disposto a me consumir nessas delícias até o fim de mim, nessa vivência de morrer de amar e viver de amor e amar a vida, até, e além.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Batiza

Há de renascer no peito ainda um broto da pequena planta de esperança num viver e amar possível.
Há de brotar do seco terreno ainda uma fonte que faça filetes de água percorrer a ferida aberta.
Há de ser limpo e bem cuidado esse chão pra que com o tempo volte a ser fecunda essa terra.
Há de reaparecer aquilo que nutre os grãos.
Há de ser terra em que se planta, tudo o que der muito fruto, permaneça.
Há de tudo florescer ali.
Há de ser pomar, um dia.
Há de ter sombra depois de tudo crescido.
Há de ter frutos maduros sempre.
Há de ter vento soprando constantemente.
Há de ter um banco de praça, ou uma lisa rede branca.
Há de ser jardim.

E quando pronto estiver, de pronto direi:
Batiza. Esse jardim é teu.
E como teu será, não haverei de reclamar
Se de maneira simplória resolveres chamar
Este singelo lugar de - coração.

Batiza. Esse jardim é teu.

sábado, 16 de abril de 2011

oposto

É a morte e a vida
A dor e o gozo
O liso e o grosso, a aspereza na pluma
O forte, o muro, a cerca
É o seco e o encharcado
É o murro e o afago
A flor e a foice

É assim a dor e o amor que sinto
Bem querer e rancor
É o vingar-se
Morrendo de vontade de amar
É a raiva
A sede de hostilidade
E o desejo de cobrir-te de abraços
E dizer que te perdoo
E dizer-te: nunca mais
E querer o pra sempre
E te desejar toda paz
Querendo a guerra
Pra que te sangre a alma
E assim grites meu nome
E eu te receba na mais fina calma
Ou te ignore com brutalidade enorme

É doce
E é azedume
É ácido
É levemente corrosivo
Ao passo que se mostra construtivo
É perfume. É aroma
É essência. É lavanda
É o resto. É o lixo
É o podre. É a lama
É um pé de uma fruta qualquer
É a praga que mata lavoura
Empobrece. Enobrece
Vem e vai
Some. Cresce
Envelhece
Rejuvenesce

Canção que me chega grito aos ouvidos
Quero o teu fim
E o teu início
Que seja em mim
Que seja eu o fim da tua linha
E que eu seja a ponte
E o precipício

Que se apague
Que se grave
Pois é de se considerar trágico
E de pra sempre se orgulhar

sábado, 2 de abril de 2011

a Deus

Eu queria repouso.
E toda lentidão do mundo.
E pausas.
E todo adiamento.
Um tempo arrastado e de paz.
Tempo de contentamento.

Queria não me dar a sentimentos.
Queria o não ser.
Eu queria ser preguiçoso no querer.
E muito mais, queria não contender.
Com a vida.

Queria a conformidade.
Queria não mastigar pensamentos.
Queria saber querer por querer.
Queria ser gelo.
E queria distância eterna do fogo.

Queria nunca derreter.

Queria assim não ser.
Se assim pudesse escolher.

Eu queria um fim.
Uma utilidade sem dor.
E queria logo.

Queria o esquecimento.
Pois, se aguardo
Será tarde o momento
Não poderei retornar.

E as noites dos meus dias vão chegar.

Eu queria a paz.
E o som do nada.
Queria a madrugada.
E a fuga.

E não queria mais nada.